Arquivos Mensais: Outubro 2008


Todos os dias me vou deparando com problemas ‘fantasma’. Tenho o habito de chamar ‘fantasma’ a tudo o que tem uma registo pouco definido, pouco presente mas que deixou alguma coisa. Normalmente só me deixam memórias, outros ficam à espera de uma reflexão mais ‘assertiva’, e qualquer um teima em surgir em nuances do quotidiano, onde se misturam com a memória, num cheiro de um local, na impressão que alguém me deixa, em cores, em sons, etc.
Algumas dessas particularidades do dia-a-dia, que por vezes se aproximam quando afectam pessoas com que tenho algum contacto, até já me afectaram a mim (de uma forma ou de outra). Pelo que não consigo deixar de escrever aqui alguma coisa, ‘deixar aqui minha posta’ como se costuma dizer, sobre os mesmo.

A solidão já me consumiu há uns bons anos atrás. Mas até à cerca de um ano achava ridículo alguém se queixar dela. Ainda não sei bem o que me sensibilizou para a solidão, embora desconfie que é por ver alguns amigos meus e a minha avó a viverem sós (mas rodeados de outras pessoas). E talvez isso me tenha transportado aos tempos em que passava férias isolado e sem ter oportunidade de falar com ninguém.
Nesses tempos, como não falava, não conseguia materializar ideias, emoções, pontos de vista e outros pensamentos. Como nunca os confrontava com outros e nunca os via à minha frente, nunca reflectia sobre os mesmos. Nunca os criticava e nunca tinha oportunidade de verificar se estavam ou não bem, se me ajudavam ou não. Por fim, isso impedia-me de testar as coisas e de as materializar, de as verificar e de olhar tudo com base nessa experiência. Ficavam sempre em estado, que hoje, num contexto completamente diferente acabo por achar muito saudável, de ‘coisa’.

Só me consigo lembrar deste modo de estar em vácuo, como um retrocesso ao desenvolvimento saudável de qualquer pessoa – para mim foi!
Só na universidade é que senti o valor e o significado da experimentação. A experimentação é, para justificar a presença dela aqui, algo que dificilmente se consegue efectuar se vivermos sempre sós, sem estímulos. Já que sozinho ninguém – ninguém que eu conheça – se incomoda em fazer nada, porque a noção de ‘frente’ envolve que existam outras direcções e porque a experimentação implica ruptura, muita vezes connosco. E para quem nunca olhou para fora da janela, isto das direcções significa precisamente outras pessoas e, no seu movimento, o universo que vão criando. Sozinho ninguém se consegue desembaraçar dos fantasma antigos e seguir em frente. A solidão é precisamente fundamental pelo contrário, para criar fantasmas, sonhos e ambições – que são elementos também eles fundamentais para a experimentação. Mas qualquer um precisa de ser constantemente posto em causa nessa rede de direcções, que não são outra coisa senão aquilo a que vamos definindo como realidade.

Muito para além de saber serrar como deve de ser e conseguir operar a maquina XPTO que faz milhões de unidades por minuto, desenvolver a linguagem e a expressão verbal é importante para conseguirmos reflectir, materializar e perceber conceitos e consequentemente aumentar a nossa sensibilidade para o mundo à nossa volta. Para mim, foi dessa maneira que consegui expressar e obter as ferramentas necessárias para aprender e trilhar o meu próprio caminho. E acho que as melhores ferramentas estão nessa coisa plástica e que está tão mal conotada, como se tratasse de uma hierarquia, chamada de inteligência. É verdade que, esses caminhos são mais semelhantes a um trilho, e são percorrido muitas vezes sem grande consciência e uma grande dose de trabalho para a compensar, mas sempre com as ferramentas necessárias para levar as ‘coisas’ a algum lado. Vou adquirindo por isso, algum poder nessa rede tecida pela sociedade e expressa na economia e na cultura, vou até ajudando a tecer, a criar pontos de condensação à minha volta e a aperceber-me de outros. Se tivesse a consciência que tenho hoje, quando era mais novo tinha tentado participar em actividades, fazer voluntariado talvez. Mas também é verdade que com pouco conhecimento vão se restringindo as hipóteses de ser útil e de conseguir contribuir para os outros. O que quer que seja, tudo é melhor do que estagnar e não nos conseguirmos ver. Experimentar locais também serve como catapulta.

Não consigo deixar isto passar sem referir que, muitas vezes a solidão e a memória que dela guardei em períodos mais ‘juvenis’ da minha vida, está associada à família e à inércia desta, ou amigo/s (grupos) que não correspondem à nossa felicidade, agindo até, tal como a família, como elementos de censura.

Bom! mas passando à frente. Ao reflectir sobre este assunto, percebo um pouco do que é ser-se velho. Os velhos, os que vejo pelo menos, vivem num estado de honestidade física imensa. Transportam todos os dias uma imagem que não é socialmente apelativa e, a nossa espécie (seja nova ou velho), revela uma dos aspectos que mais tenta esconder: não é capaz de revelar carinho e qualquer expressão emocional a imagens que reflectem a sua própria decadência, não são socialmente apelativas ou que não preenchem o seu universo de fetiches. Os velhos, vivem num universo onde as caricias e afecto não existem, onde não existe ninguém que goste ou possa vir a gostar de nós. E se falar sem ser ouvido e viver debruçado no passado que se criou e viveu (e que vai morrendo juntamente com quem lá viveu) são aspectos inqualificáveis dessa vida precária, o lado emocional é ainda pior. Acrescenta uma dimensão ao estar só. Só a consigo perceber assim de ‘raspão’ e nem a quero perceber melhor.

Quem é velho tem também um fim sempre presente, está naquela parte da vida ingrata, e do mais real que existe, que nos esclarece de uma vez por todas que somos organismos com um prazo, como os tais ‘bixos’ e as plantas à nossa volta. E penso que esta é a diferença entre quem está só mas é velho e quem está só mas é novo. Alguém numa idade avançada transparece, pelo menos, uma atitude de desistência. Qualquer tentativa de experimentação social, ideológica, ou de qualquer outro género, parece ter deixado de existir. Olha-se para trás como se já não existisse mais nada á frente.

Muito pelo contrário, quem é novo, tem um universo de esperança, acasos e oportunidades muito grande. E se os momentos que passava na solidão foram mesmo um retrocesso na minha vida. Foram propulsores de uma vontade enorme de lá sair e procurar o que me fazia, na altura, mais feliz. Pelo que talvez seja por isso que ache estranho alguém, sem ser daquela categoria dos ‘idosos’, se queixar ou dar sinais da solidão.

Hoje a solidão vai-se manifestando, por vezes, a nível profissional, em objectivos, em metas, retornos, etc. E a solução continua a ser mesma de sempre.


As bicicletas todo o terreno servem, tal como o nome indica, para andar sob todo o tipo de terreno. Contudo, como já aqui referi, não as acho particularmente eficazes sob o tipo de terreno ‘asfalto’ :P
Por isso, o que tenho em mente ao dar a minha opinião sobre uma boa bicicleta de montanha, são os terrenos acidentados ou outros onde a civilização ainda não chegou totalmente.

Ao contrário dos lojistas, não acho que sejam bicicletas que sirvam para tudo e nem acho que toda a gente quer andar com a bicicleta em locais tipo este, este ou este, onde se percebe as vantagens destas bicicletas. E é ainda devido à existência de terrenos com características diferentes, que existem vários tipos de bicicletas de ‘montanha’ segmentadas segundo um uso mais habitual para cada um. Estas existem não somente pelo tipo de terreno, mas pela forma como cada um gosta de andar no mesmo, seja mais calmamente ou de um modo agressivo.

Aqui só vou falar de conheço bem, que é uma coisa muito semelhante ao Cross Country (XC). Ando de olho em várias bicicletas: de estrada, de ‘all mountain’ e Downhill, mas como não tenho ainda voto na matéria nessas duas últimas aplicações e as sugestões que ia dar eram as que me interessam (algumas estão no post da Bionicon), fico-me pelo XC, até porque é mais normal conhecer as particularidades do BTT pelo Cross Country, já que as restantes ‘categorias’, que definem mais ou menos outras formas de viver isto do BTT, acabam por ser mais especificas por explorarem algumas particularidades dos trilhos e terrenos (e são, pelo menos para o uso recreativo, mais caras).

Ultimamente marcas como a Specialized, Trek, Scott, Gary Fisher (com a geometria ‘Genesisters’) e GT (e outras com menor expressão), começaram a produzir modelos com geometria especifica de senhora, coisa que há alguns anos atrás (uns três provavelmente) não existia para quem não tivesse dinheiro para um quadro feito por medida. E é por estes modelos que vou começar.

> Specialized Myka (2008 ou 2009, ??kg, ~350€) e GT Zaskar Expert Woman (2009, ??kg, ~1600€).

Specialized Myka
Specialized Myka, roubada do site da Specialized
GT Zaskar Expert Woman
GT Zaskar Expert Woman

Qualquer modelo das Myka, bem como as Scott Contessa’s até à Contessa 20 e 10, e todas as Treks com a expecção da 6700 e 8000 WSD, vêm mal equipadas para o preço que têm. Daí que esta Myka esteja aqui. As da Scott e Trek são igualmente bons quadros (a Scott opta infelizmente por uma pintura ridícula ‘p’rá menina’) e qualquer um pode ser melhor adequado para diferentes pessoas, só que o preço não equivale ao que se vende. A Myka vêm mal equipada mas é a mais barata (350€ sem o habitual 5% de desconto), e já que se compra uma bicicleta para mudar grande parte dos componentes, convém que seja barata.

Pontos a favor:
- Geometria (embora isto dependa do corpo de cada um)
- Não é muito pesada. E é verdade que nunca a pesei, nem os pesos vêm anunciados em lado nenhum, mas dá para sentir que não é assim tão pesada comparativamente a outras bicicletas de ~11kg. Pelo que, como vêm de origem, deverá andar pelos 13,5kg.

Pontos contra:
- Todo o material com que vêm equipada.
- Quadro de alumínio.

Sugestões:
- Alterar pedaleiro para um Truvativ FireX 3.0 GXP ou Shimano SLX, rodas para umas Fulcrum Red Metal 5 ou Mavic Crossride. Desviador de trás para Shimano Deore, Deore XT ou Sram X7 ou X9. Cassete Shimano de 9 velocidades Deore ou Deore XT. Desviador da frente para Shimano Deore. E alterem o guiador para outro qualquer porque o que equipa a bicicleta de origem é pesado. Mais tarde, trocar a suspensão da frente também.

Com estas alterações, sem a suspensão, a bicicleta ia ficar a aproximadamente 700€ (com X7 atrás, Deore à frente, Fulcrum Red Metal 5 e qualquer uma das pedaleiras que referi). Por mais 300€ compravam-se dois travões de disco Hope Mono Mini, e por outros 300€ uma RockShox Reba Race. Isto totalizava 1300€. Comparativamente, a GT Zaskar Expert Woman de 2009, têm um preço aproximado de 1600€, não vem tão bem equipada e o quadro é curiosamente semelhante ao da Myka (que já existe há mais tempo), com o pormenor do triângulo triplo, único da GT, que se calhar há uns bons anos atrás vendia por prometer mais rigidez lateral.
Gosto da GT, mas ia sem dúvida nenhuma para esta Myka com as a respectivas alterações.

No campo das suspensões integrais, o orçamento é diferente. É tudo mais caro, é mais caro do que estava à espera, já que não acompanhava de perto os preços que eram praticados para estas bicicletas. Acho-os ridículos. Não sei se é por uma questão de preferência e aspectos que para mim são relevantes a andar de bicicleta ou, se é de facto, o mercado aproveitar uma euforia/moda qualquer. Mas ao ver o preço destas bicicletas, tive mesmo vontade de nem as listar aqui. Bicicletas com suspensão integral com estes cursos (100 a 130mm) e quadros fracos, não é nada que me agrade. Nos trilhos onde ando por vezes reparo que poderiam facilitar, mas na maioria das vezes não fazem sentido. Sendo que o mais indicado é uma rígida ou uma bicicleta mais robusta com cursos de 150/160mm. Em muitos trilhos e em qualquer outro local são capaz de ser o mais indicado para pessoas com problemas de costas, e é por isto e porque a suspensão traz consigo mais tracção em terrenos mais complicados e pode facilitar e ajudar a percorrer maratonas longas, que as decidi colocar aqui. Porque gastar 4000€ ou 5000€ numa bicicleta destas é dinheiro para o lixo (a não ser para quem compete como é óbvio), não fazem ninguém andar mais rápido nem conseguir abusar em trilhos mais complicados, e muito menos sentir a adrenalina das tais bicicletas mais robustas e com mais curso como a Santa Cruz Nomad.

> Scott Contessa Spark 25 (2009, 11,6kg, ~2,400€).
Scott Contessa Spark 25
Scott Contessa Spark 25

Esta, como todas as outras marcas e modelos que vou aqui falando são meras referências. Existem mais marcas e modelos com estas mesmas características e que são tão boas ou melhores (ou piores também). Era, por exemplo, para falar da Cannondale Scapel Féminine mas não sei o preço e o peso, e da Trek Top Fuel 8 WSD, que custa apróx. 3,285€ mas não sabia o peso. E então surgiu esta Scott.
Só não gosto das rodas, e já que se vai gastar 2,400€, mais valia gastar mais 350€ numas American Classic MTB Light, de apróx. 1400gr. Sem ser isto, não tenho nada a apontar à bicicleta.

Para os ’senhores’ existem mais soluções, muitas mais alias.

> Salsa Ala Carte (2008, 11,8kg, preço ?)
Salsa Ala Carte
Salsa Ala Carte

Não sei o preço, mas é uma das minhas opções ainda pendentes para o quadro novo (:P). A bicicleta completa proposta pela Salsa também me parece bem a nível de componentes e peso. Só não sei é o preço. Mas não lhe tenho a apontar nada de negativo, só lhe mudava as rodas para as American Classic que referi à pouco, o que ia levar a bicicleta mais para perto dos 11kg.

Nas suspensões integrais/totais/duplas suspensões..
> Canyon Nerve RC 7.0 (2009, ~11,4kg, 1,800€) ou Cannondale Scapel 4 (2009, ??kg, ~2000€) ou Cube Sting Super HPC K18 (2009, ??kg, ~2,650€)
Canyon Nerve RC 7
Canyon Nerve RC 7
Cannondale Scapel 4
Cannondale Scapel 4
Cube Sting Super HPC
Cube Sting Super HPC

São todas boas, mais acho que alterava as rodas da Nerve RC e Sting para as American Classic MTB Light. De resto varia o sistema de amortecimento. É experimentar e escolher.
Com o preço que têm, não têm desculpas para não ser boas.

Como nota, só tenho a acrescentar que para o preço de uma suspensão integral, não se pode afirmar, pelo menos para a maioria das carteiras, que sejam bicicletas para conhecer melhor isto do BTT. São para quem já sabe o que gosta de fazer na ‘montanha’ e está disposto a pagar por isso.

Então afinal, porque é que estas bicicletas são para BTT e as outras não ? Porque é que não se deve ir para outros terrenos com uma Pashley ?

Bom, todas as bicicletas andam em terrenos fora do asfalto. Mas com uma Cannondale Bad Boy ou uma Pashley Sonnet (pelo menos como são vendidas), não se ia conseguir passar sem partir nada, a velocidades normais e em terrenos que não sejam como o ‘carreiro’ de terra batida lá da rua que leva até à porta de casa.

_E isto é assim porque, ambas as bicicleta não têm os pneus de mais ou menos 51mm de largura (e isto dá um volume considerável comparativamente aos que equipam ambas a bicicletas) que absorvem muito dos impactos e com um ‘cardado’ que o agarra ao chão, quer seja a andar em frente, a travar ou a curvar. Nem têm os aros resistentes, porque a estrutura no material que é de facto, adequado para o BTT, é pensado para resistir a um uso abusivo. Tal como os raios e o cubo que compõem a roda, o pedaleiro, os pedais, o guiador, avanços e caixa de direcção.

_Nem os quadros são pensados para esses abusos quando estão a ser concebidos ou quando se escolhem as tubagens e se fazem as soldaduras.

_Nem o slooping é tão acentuado como num quadro de BTT. Pelo menos num quadro ‘moderno’, já que os clássicos eram apropriações de quadro de estrada. Que é fundamental para uma coisa também fundamental no BTT, a manobrabilidade – o ’sentir a bicicleta na mão’.

_Nem o material é sempre selado contra lama, chuva e barro.

_Nem a geometria têm ângulos adequados para subir e descer (ou só descer) em pisos irregulares. (Se tiverem atentos, os ângulos do tubo do selim e direcção são diferentes das bicicletas anteriores)

_Nem existem suspensões ‘a sério’, ou seja, que consigam absorver impactos dignos do nome. E se a suspensão é algo que não é essencial, o que é certo é que dão mais tracção e em provas/percursos longos, onde se passa muito tempo em cima da bicicleta, dão-nos mais conforto e facilitam a viagem. E quando o quadro assim o permite, uma suspensão com um curso grande (curso = a viagem que a suspensão faz do ponto ‘normal’ até bater no fundo, e que é medida em milímetros), absorvem grande parte dos impactos e permitem saltar e descer a grande velocidade.

E penso que é isto que distingue as BTT das outras que aqui tenho referido.