Arquivos Mensais: Março 2009

Nestes três últimos anos, tenho assistido a uma mudança de posicionamento das livrarias, a qual acho, por um lado curiosa e por outro, muito má.

Primeiro, por posicionamento, refiro-me à forma que as livrarias arranjaram para vender livros, isto é, aos livros que vendem, ao modo como os vendem e à forma como os categorizam. Com isto, posicionam-se face ao público que procuram. E não falo só das livrarias físicas, falo também das online, ou melhor, exclusivamente online como a Wook ou a Amazon.

Como se já não bastasse o tipo de livros que escolhem para vender, que são só relatos de desgraças e de sucessos, livros de ‘ajudem-me, por favor! que não sei como falar com o meu filho’, livros de figuras públicas, livros de concelhos práticos e ‘bricabraques’, álbuns de fotos que se arranjam em qualquer lado e mais uns tantos que considero livros da treta. E acho isso, porque não vejo a oferta de conhecimento que oferecem e a nível de entretenimento têm nas televisões e Internet uma melhor meio para expor o seu conteúdo.

Mas as livrarias, têm também demonstrado a sua adaptação à nova clientela, ao catalogar os livros. Um exemplo:
Quando vou à secção de Psicologia o que lá não falta são livros lúdicos que abordam, também de forma lúdica e leviana, alguns aspectos de natureza psicológica do quotidiano. Mas são pequenos textos, pequenos manuais práticos do mesmo género dos livros que nos ensinam a criar o nosso Bonsai. Agora, esses livros do Bonsai não estão (nunca os vi, pelo menos) na parte da Ciência/Biologia, da mesma forma que a história da Carochinha, que foca alguns aspectos antropológicos muito interessantes, não se encontra na parte de Antropologia porque, a história da Carochinha é um conto popular e que como tal, é natural que como história que é, contenha uma dimensão antropológica relevante, mas não deixa por isso de ser, essencialmente, uma história.

Contudo, a história da carochinha ou qualquer colecção de contos populares, não ocupa nenhum lugar na prateleira da Antropologia, pela simples razão de que não é um estudo ou ensaio cientifico/académico, porventura apoiado noutros estudos, textos e práticas relevantes, de natureza cientifica que dão forma à Antropologia e que são úteis para quem quer informação nesta área, apoiada nessa substância, rigor e profundidade.

O mesmo se passa noutras áreas, como a psicologia, sociologia, economia, gestão, marketing, medicina, filosofia (que pelo desinteresse que lhe é merecido pelo público contemporâneo de uma livraria, nem sequer é alvo dessas confusões), biologia, física, química, geografia e por ai fora.

E como se já não fosse suficiente a escolha de livros que compram e pretendem vender, a disposição física que usam para os divulgar (ver post das Livrarias), as livrarias usam ainda este método de catalogação para ficarem lado-a-lado com o seu novo cliente.
A única justificação que encontro, para este último aspecto, é a de que querem que este novo perfil de leitor se sinta bem consigo, se sinta inteligente e com elevada auto-estima, já que afinal de contas o podem encontrar na secção de Antropologia a comprar a colecção de contos populares, na secção de Psicologia a comprar um livro que o ensine a falar com os amigos e na de Biologia a comprar outro que o ensine a cuidar bem do seu Bonsai.

Nas livrarias que vendem online, estes mesmo livros ocupam as listas pelas mesmas categorias das lojas físicas e são uma imensa perda de tempo e paciência.

Para os senhores da Bertrand, Almedina, Fnac, Wook e Amazon, e outra livraria qualquer que pretenda ter uma presença online ou dignificar a física, propunha o seguinte:
- Usem as seguintes grandes categorias de livros: Científicos / Académicos, Literatura, Lúdicos / Lazer, B.D, Arte, ou outras grandes categorias, já que não me lembro de todas.
- Em cada uma, subdividam pelas respectivas áreas de conhecimento.

Assim não enganavam ninguém, não faziam perder tempo a ninguém e também não afastavam ninguém.
Ia diminuir o ego de quem actualmente compra histórias da carochinha na secção de Antropologia (uma caricatura, bem sei), já que iria passar a comprar em Lúdicos/Lazer>Antropologia, mas prontos.. está lá o nome de Antropologia à mesma.

E não tenho nada contra os manuais disto e daquilo, nem contra os contos populares (muito pelo contrário). Só não gosto é de ir à procura de um livro, que seja de facto, sobre antropologia e em primeiro lugar, não ver lá nada de substancial e, em segundo lugar, ver lá uma série de livros que nada têm a ver e só me fazem perder tempo. Da mesma forma que quando vou à procura de contos populares, não gosto de não saber onde é que estão ou ter de os procurar em sítios errados.

Só para relatar alguns factos dos quais não tenho achado qualquer piada:

01. A Reportagem da SIC sobre o desemprego/emprego (emitida dia 02/Março/2009) foi um autentico disparate, bem como o estudo do Ministério da Ciência e Ensino Superior.
Disparate da SIC porque:
- a Home Energy, não é nenhum prodígio do espírito empreendedor, nem fenómeno empresarial, nem uma história da Disney sobre o jovem empresário de sucesso, conforme a reportagem pintou. Se cresceu exponencialmente em 6 meses de existência (diziam na reportagem que existiam à meio ano), é porque pertence ao Grupo Martifer que está curiosamente ligado à construção e energia e, segundo os mesmos, as suas áreas de negócio são: “Construções metálicas”, “equipamento para energia”, “geração eléctrica” e “Agricultura e Biocombustiveis”.
- Uma reportagem que suporta apenas um ponto de vista é uma espécie de promoção/publicidade mascarada, uma espécie de Publicity, coisa que acontece bastante no Imagens de Marca.

Disparate do Ministério porque:
- O estudo que publicaram baseia-se numa ideia, também ela bem disparatada, de um par estabelecimento-de-ensino/curso, o que acaba por descredibiliza-lo, já que o próprio estudo, a certa altura, verifica que não existe uma relação entre esse par e o número de desempregados inscritos no centro de emprego.
- Grande parte dos dados carecem de estudos comparativos, pelo que não são nem próximos de se tornarem significativos e muito menos conclusivos.
- Quem faz o estudo não parece nunca andar na rua e reforça a ideia de que, dizer disparates gratuitos é coisa, infelizmente, abundante nos ministérios. Onde parece faltar até o senso comum.

02. Também nessa reportagem, mas já a sair deste universo da TV, notei que se começou a cristalizar publicamente a vontade que os engenheiros têm que lhes chamem de inteligentes. É, ao que parece, uma vontade de dominar totalmente esse conceito de inteligência e abriga-lo, com total exclusividade, no interior da área da engenharia. Estou a falar da entrevista a um dos fundadores (ou será ao fundador?) da Critical Software, que se fartou de repetir e dar ênfase às pessoas incrivelmente INTELIGENTES, cuja INTELIGÊNCIA querem aplicar ao desenvolvimento de software, não fosse a Critical Software uma empresa repleta de gente INTELIGENTE, que as torna ainda mais INTELIGENTES e procura constante outras pessoas com igual ou maior nível de INTELIGÊNCIA. Quem já falou com alguém da industria dos moldes, saberá que isto não é exclusivo da engenharia informática mas que é uma vontade de todos os engenheiros.
Coitados dos médicos, advogados, artistas, jornalistas, gestores, marketeers, professores, investigadores, cientistas, designers, empresários e, no fundo, toda a gente, que não tem direito nem detem sequer, essa tal de INTELIGÊNCIA. Segundo a Critical, por exemplo, se fossem realmente INTELIGENTES, estavam a desenvolver “tecnologias em que o sr. cliente pode confiar, para o sistema critico que o sr.cliente precisa” (:P). E se não estiverem a fazer isso, é porque, das duas uma, ou estão tristes no local de trabalho actual que não potencia a sua inteligência, ou então são uns grande idiotas.

03. As séries deviam ser mais honestas nos nomes. Até acho que deviam voltar a usar nomes como antigamente. Assim a E.R poderia ser chamada do Hospital do Amor ou a Sala de Urgências do Amor. Um nome bastante mais justo do que o actual e que servia na perfeição, entre muitas outras, à Grey’s Anatomy. Já que, pelo que vou vendo, hoje em dia tudo o que é série acaba por ser uma espécie de Barco do Amor com um cenário e personagens diferentes.

E é só para esta semana.