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Muitas vezes vem ter comigo (:P) a ideia de que cidades deviam ser definidas, não pelo numero de habitantes ou ‘equipamento’ que detêm, mas pela dinâmica sócio-económica. Porque é esta que acaba por deixar que tudo o que é qualidade – e mais importante, a diversidade – acontecer.
Leiria por exemplo não é uma cidade. A economia circundante, pelo que conheço, é devido à industria dos moldes e outras empresas que auxiliam esses mesmos fabricantes. Depois é comércio/distribuição e negócios locais de fabrico de coisas que vêm de outro lado qualquer/que são copias baratas de outro lado qualquer/que têm a ver com metal ou plástico. Existem outras coisas, mas neste contexto são insignificantes.
Socialmente, Leiria é um aglomerado moribundo. A dinâmica é exactamente igual a qualquer aldeia que toda a gente deve conhecer. E de facto, para se conhecer quem está por detrás de 90% dos ‘negócios’ que se fazem por cá, basta ir às redondezas de Leiria (não se preocupem, que é rápido lá chegar), e ver as aldeias e as pessoas que, não só lá habitam, como também participam e ajudam na edificação de valores locais (/pessoais). Nem toda a gente que mora em aldeias/cidades/estados ou países é sinónimo da mesma, mas quando participam e incorporam valores, ideologia, hábitos e investem na mesma, então isso já os transforma em sinónimos. E a maioria dos empresários de Leiria são assim. Ou é família, ou são amigos, e os negócios são garantidos por um destes factores, e depois expandidos para outros mercados já fora desse circulo. Se não é isto, é porque é uma grande cadeia de comércio nacional/internacional.

Como numa aldeia, as pessoas vão a um local porque conhecem X ou Y que lá trabalha, ou que fundou esse tal local. Se pretendem ir a outro, procuram conhecer quem está por detrás, ou alguém relacionado ou alguém que lá marque presença e seja conhecido. Como numa aldeia, existem laços normais de família, que mesmo que não se goste há que os ‘aceitar’. E tal como numa aldeia, existem laços de cumplicidade, que no caso de Leiria pelo menos, estão relacionados com a precariedade de onde muitos desses negócios nasceram e, na maioria dos casos, da inaptidão de quem esteve e está por trás.
Por fim, como numa aldeia, os negócios são maioritariamente familiares, e herdam-se, contaminam-se e passam por períodos de transição, que se misturam com intrigas da família, e intrigas da família com a aldeia, e dos problemas hierárquicos e pessoais que isso trás atrás.
Ah! ainda existe outra coisa semelhante a aldeias. Quem quer pertencer a essa aldeia e participar lá, têm de ser aceite pela comunidade, seja por obedecer aos seus critérios, seja por ter ou criar amizades por lá. E nada mais exemplar do que a ‘entrada’ da MediaMarkt, os electrodomésticos do chupa chupa (é o que o logotipo deles parece), que se nega a colocar preços e uma loja online, embora estejam convictos que têm os preços mais baixos. A MediaMarkt deu um chupa chupa a uma entidade de caridade aqui da região (assim obriga toda a gente a gostar deles), anunciaram em jeito de circo a sua presença na aldeia e que, embora discreta, pela dimensão da aldeia, pareceu ocupar todos os espaços existentes. E já dentro da comunidade e com presença internacional, que todas as aldeias admiram, porque se sentem importantes – afinal até uma superfície comercial de nível internacional acha que nós os merecemos, que temos valor! -, chamam toda a gente idiota, ou parvo talvez, fazendo-os querer que têm de ir lá mesmo que achem que não, porque afinal x numero de pessoas já foi! Mas dar doces e criar alvoroço não é suficiente, há que participar nessa coisa da integração do mercado com as universidades/politécnicos. Como Portugal no geral, gosta de sonhar, nada mais fácil do que dizer ser maravilhas e oportunidades para a Escola Superior de Tecnologia e Gestão do IPL. Como sou um leitor assíduo mas ausente da presença online da imprensa escrita, não cheguei a perceber como é que isso será levado a cabo… será em colocar lá os estudantes a trabalhar ? grande futuro para quem estuda engenharia, sim senhor. Mas há que reconhecer que são ambições equivalentes à da maioria de quem anda estuda nessa escola.. ou será que vão promover a industrialização e venda de alguma engenhoca inventada pelos estudantes ? 5.000€ já não chegam para iludir ninguém nesse caso…
No fim de contas, esta achega a Leiria por parte da MediaMarkt, revelou o que é uma estratégia de penetração adequada para esta aldeia/cidade (e aldeia/cidade não é só Leiria em si, é a região toda com quem têm alguma sinergia), ao contrário do CinemaCity, que embora como qualquer outro negócio, traga benefícios para a cidade. Para os chefes da aldeia tal não é óbvio, e sem docinho reagiram um bocado mal a este novo habitante, até porque a câmara já tem cinemas.

Porém, qualquer destes exemplos, para mim, reforça a ideia que a designação de cidade devia ser mais exigente, não por quantidades, mas por capacidades, dinâmica social, capital intelectual, grau de anonimato e liberdade dos ‘eleitores’ ou ‘cidadãos’ ou das pessoas que habitam nessa região, grau de respeito e abertura, capacidade de criar soluções, de adequação, e claro, também a prosperidade que é capaz de gerar e o potencial de investimento desta. Um pouco como esta definição que esta na wikipedia, e que foi retirada de um exposição qualquer, dita por uma pessoa qualquer também: “A cidade é um habitat humano que permite com que pessoas formem relações umas com as outras em diferentes níveis de intimidade, enquanto permanecem inteiramente anónimos.”.
Se é para definir uma cidade pelos números, então penso que cidade deveria ter no mínimo 1 milhão de habitantes, e aquelas parametros da lei Portuguesa para definir uma cidade, deviam ser todos (e não apenas parte deles) cumpridos, e de forma relevante. Tudo o resto, principalmente num país onde os resíduos de uma história muito particular (e negativa) ainda são presentes, é aldeia.

O problema de Leiria e da sua sociedade moribunda e da estreita relação que isto têm com industria de cá, das gentes ‘técnicas’ e operárias (que teima em querer ser semelhante às linhas de produção da Ford, na época do Modelo T), têm de igual forma, a sua expressão na gestão da própria cidade, nos recursos e infraestruturas, que se relacionam com precariedade com aquilo que se assemelha a uma rede de transportes públicos. Mas isso já são outros assuntos, que nem a mim me interessam. O que me interessava era dizer, sem grandes exemplos e fundamentos mas apoiado na minha experiência (que está longe dos textos floreados da câmara e provavelmente, do turismo), que as cidades deveriam ser uma designação exigente e responsável, de forma a não enganar ninguém, sem que este tenha de submergir no seu tecido. E que Leiria não é certamente uma.

Ah! Falei das aldeias, num ‘tom’ depreciativo (o que me parece ser uma forma simpática, mas cínica, de catalogar o que escrevi). Ser aldeia não é mau, é terrível. Tenha ela o nome de Leiria ou outro nome qualquer. A aldeia têm ainda um poder de inibição e coacção psicológica grande – precisamente por condensar um numero considerável de pessoas num espaço pequeno -, pelos seus agentes mais velhos – que não são os idosos – e que hoje praticam essa coisa de ser pai e mãe de uma forma activa, e que por acaso, são também quem detém esses tais negócios na região. O poder é reflectido nesses outros que praticam, sem querer, essa coisa de ser filho (que regra geral, vai fazer o mesmo). E é de igual forma propagado na ética de trabalho, na hierarquização da empresa, nas discrepâncias imensas dos salários, e nas decisões de quem entra ou não para essa aldeia maior que é, neste caso, Leiria. Se aliarmos isto a origens de grande pobreza intelectual e material, é fácil observar que a primeira ficou onde estava e a segunda é procurada e conquistada a todo o custo. Da mesma forma dá-se mais valor ao que se pode comprar e vender, do que ao que têm de ser criado, exigindo um esforço intelectual imenso, que para muita gente daqui, é ainda inacreditável o facto de alguém fazer negócio disso.
Por muito que se compre e venda (e Portugal sofre imenso por só conseguir fazer isso), a sociedade fica igual porque não pensa, não critica, não sabe reflectir e nem sabe criar ou agir. Apenas copia e consome o que os outros lhes dão, da mesma forma que as crianças esperam que os pais quando vão as compras, lhes tragam um ‘doce’.

Pelo que conheço de Portugal (e a dimensão, que embora não queira dizer nada, aqui não ajuda), isto é algo comum em todo o lado talvez com excepção de Lisboa e Porto, onde existe mais variedade que vá iludir e desvanecer alguns estes aspectos negativos de que tenho falado. Numa outra escala de acção, existe claramente, uma aldeia Portugal, que para mim é fruto dessas aldeias que o vão formado.

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