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Todos os dias me vou deparando com problemas ‘fantasma’. Tenho o habito de chamar ‘fantasma’ a tudo o que tem uma registo pouco definido, pouco presente mas que deixou alguma coisa. Normalmente só me deixam memórias, outros ficam à espera de uma reflexão mais ‘assertiva’, e qualquer um teima em surgir em nuances do quotidiano, onde se misturam com a memória, num cheiro de um local, na impressão que alguém me deixa, em cores, em sons, etc.
Algumas dessas particularidades do dia-a-dia, que por vezes se aproximam quando afectam pessoas com que tenho algum contacto, até já me afectaram a mim (de uma forma ou de outra). Pelo que não consigo deixar de escrever aqui alguma coisa, ‘deixar aqui minha posta’ como se costuma dizer, sobre os mesmo.

A solidão já me consumiu há uns bons anos atrás. Mas até à cerca de um ano achava ridículo alguém se queixar dela. Ainda não sei bem o que me sensibilizou para a solidão, embora desconfie que é por ver alguns amigos meus e a minha avó a viverem sós (mas rodeados de outras pessoas). E talvez isso me tenha transportado aos tempos em que passava férias isolado e sem ter oportunidade de falar com ninguém.
Nesses tempos, como não falava, não conseguia materializar ideias, emoções, pontos de vista e outros pensamentos. Como nunca os confrontava com outros e nunca os via à minha frente, nunca reflectia sobre os mesmos. Nunca os criticava e nunca tinha oportunidade de verificar se estavam ou não bem, se me ajudavam ou não. Por fim, isso impedia-me de testar as coisas e de as materializar, de as verificar e de olhar tudo com base nessa experiência. Ficavam sempre em estado, que hoje, num contexto completamente diferente acabo por achar muito saudável, de ‘coisa’.

Só me consigo lembrar deste modo de estar em vácuo, como um retrocesso ao desenvolvimento saudável de qualquer pessoa – para mim foi!
Só na universidade é que senti o valor e o significado da experimentação. A experimentação é, para justificar a presença dela aqui, algo que dificilmente se consegue efectuar se vivermos sempre sós, sem estímulos. Já que sozinho ninguém – ninguém que eu conheça – se incomoda em fazer nada, porque a noção de ‘frente’ envolve que existam outras direcções e porque a experimentação implica ruptura, muita vezes connosco. E para quem nunca olhou para fora da janela, isto das direcções significa precisamente outras pessoas e, no seu movimento, o universo que vão criando. Sozinho ninguém se consegue desembaraçar dos fantasma antigos e seguir em frente. A solidão é precisamente fundamental pelo contrário, para criar fantasmas, sonhos e ambições – que são elementos também eles fundamentais para a experimentação. Mas qualquer um precisa de ser constantemente posto em causa nessa rede de direcções, que não são outra coisa senão aquilo a que vamos definindo como realidade.

Muito para além de saber serrar como deve de ser e conseguir operar a maquina XPTO que faz milhões de unidades por minuto, desenvolver a linguagem e a expressão verbal é importante para conseguirmos reflectir, materializar e perceber conceitos e consequentemente aumentar a nossa sensibilidade para o mundo à nossa volta. Para mim, foi dessa maneira que consegui expressar e obter as ferramentas necessárias para aprender e trilhar o meu próprio caminho. E acho que as melhores ferramentas estão nessa coisa plástica e que está tão mal conotada, como se tratasse de uma hierarquia, chamada de inteligência. É verdade que, esses caminhos são mais semelhantes a um trilho, e são percorrido muitas vezes sem grande consciência e uma grande dose de trabalho para a compensar, mas sempre com as ferramentas necessárias para levar as ‘coisas’ a algum lado. Vou adquirindo por isso, algum poder nessa rede tecida pela sociedade e expressa na economia e na cultura, vou até ajudando a tecer, a criar pontos de condensação à minha volta e a aperceber-me de outros. Se tivesse a consciência que tenho hoje, quando era mais novo tinha tentado participar em actividades, fazer voluntariado talvez. Mas também é verdade que com pouco conhecimento vão se restringindo as hipóteses de ser útil e de conseguir contribuir para os outros. O que quer que seja, tudo é melhor do que estagnar e não nos conseguirmos ver. Experimentar locais também serve como catapulta.

Não consigo deixar isto passar sem referir que, muitas vezes a solidão e a memória que dela guardei em períodos mais ‘juvenis’ da minha vida, está associada à família e à inércia desta, ou amigo/s (grupos) que não correspondem à nossa felicidade, agindo até, tal como a família, como elementos de censura.

Bom! mas passando à frente. Ao reflectir sobre este assunto, percebo um pouco do que é ser-se velho. Os velhos, os que vejo pelo menos, vivem num estado de honestidade física imensa. Transportam todos os dias uma imagem que não é socialmente apelativa e, a nossa espécie (seja nova ou velho), revela uma dos aspectos que mais tenta esconder: não é capaz de revelar carinho e qualquer expressão emocional a imagens que reflectem a sua própria decadência, não são socialmente apelativas ou que não preenchem o seu universo de fetiches. Os velhos, vivem num universo onde as caricias e afecto não existem, onde não existe ninguém que goste ou possa vir a gostar de nós. E se falar sem ser ouvido e viver debruçado no passado que se criou e viveu (e que vai morrendo juntamente com quem lá viveu) são aspectos inqualificáveis dessa vida precária, o lado emocional é ainda pior. Acrescenta uma dimensão ao estar só. Só a consigo perceber assim de ‘raspão’ e nem a quero perceber melhor.

Quem é velho tem também um fim sempre presente, está naquela parte da vida ingrata, e do mais real que existe, que nos esclarece de uma vez por todas que somos organismos com um prazo, como os tais ‘bixos’ e as plantas à nossa volta. E penso que esta é a diferença entre quem está só mas é velho e quem está só mas é novo. Alguém numa idade avançada transparece, pelo menos, uma atitude de desistência. Qualquer tentativa de experimentação social, ideológica, ou de qualquer outro género, parece ter deixado de existir. Olha-se para trás como se já não existisse mais nada á frente.

Muito pelo contrário, quem é novo, tem um universo de esperança, acasos e oportunidades muito grande. E se os momentos que passava na solidão foram mesmo um retrocesso na minha vida. Foram propulsores de uma vontade enorme de lá sair e procurar o que me fazia, na altura, mais feliz. Pelo que talvez seja por isso que ache estranho alguém, sem ser daquela categoria dos ‘idosos’, se queixar ou dar sinais da solidão.

Hoje a solidão vai-se manifestando, por vezes, a nível profissional, em objectivos, em metas, retornos, etc. E a solução continua a ser mesma de sempre.

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