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Não sei se toda a gente conhece esta expressão. Talvez até já faça parte do quotidiano do senhor leitor, mas eu só a conheci quando comecei a trabalhar e sempre tive a ideia que, tal como a palavra/expressão ‘quilhar’ (em por exemplo: ‘estou quilhado’), era coisa da região de Leiria.

O que entendi por essa expressão, era um trabalho realizado somente para pagar custos fixos, sem de lá existir margem para salários e muito menos de lucro. E até há uns tempos, mantive essa noção, guardando uma breve mas negativa memória de um concurso que, por ser de tal forma vago e a distância entre cliente e atelier/agência/gabinete/empresa (depende do gosto de cada um) ser abismal, que nunca o assumi como trabalho. O registo que fiz, foi de um mero acto de ingenuidade da nossa parte.

Sempre achei um disparate participar em concursos. De uma ou três propostas num universo de umas seiscentas, todas elas feitas sem dialogar com o cliente, sem o ouvir e sem o perceber, quer a ele como aos seus objectivos, ao seu contexto e às suas expectativas. É, claramente, um exercício de ingenuidade. Pouco identificativo da capacidade de resolução de um problema de forma a que o cliente lucre com o mesmo. E pouco profissional, já que é injusto para o tempo que cada pessoa/atelier gasta no seu desenvolvimento, de elevado risco (99%), sem, na maioria dos casos, existir qualquer pagamento dos honorários de, pelo menos, quem foi seleccionado para uma fase de decisão. Sim, porque reunir vários projectos para ter um leque de escolha imenso, deverá ter custos correspondentes aos benefício que apresenta, caso contrário estamos a usufruir de mil trabalhos e milhares de horas de desenvolvimento, mas a pagar apenas um.

Da mesma forma, sempre achei um disparate avaliar-se um atelier pelos prémios que ostenta e pelos os concursos onde foram seleccionados. Porque os prémios são pagos (veja-se por exemplo os Prémios Design Briefing ou os da FWA, entre muitos outros), porque os prémios são avaliados por alguém – um júri -, cujos interesses nunca coincidem com os interesses financeiros do cliente; e porque os prémios são dados a trabalhos que são avaliados, na melhor das hipóteses, num contexto diferente de um eventual (futuro) cliente, e na pior, completamente descontextualizado do universo do cliente para o qual foi desenvolvido (coisa que é vulgar). Mas na óptica do cliente, que nada sabe sobre essa coisa da comunicação visual, saber que alguém – alguém que sabe! – avaliou o trabalho desse atelier e lhe deu a sua aprovação, é motivo suficiente para contratar os seus serviços. Até porque o cliente têm a ideia de que os senhores dos prémios andam aí a ver todos os trabalhos que se realizam em Portugal e reconhecem os que ‘têm valor!!!’.
Os prémios, na altura que o cliente acredita neles, está ao mesmo tempo a desvalorizar o atelier que pretende contratar, já que só por causa desses magníficos e verdadeiros ‘caça talentos’, que atribuíram o prémio ao respectivo atelier, é que o sr. cliente acredita no mesmo.

Mas hoje, acabo por me deparar com um numero ainda relevante de concursos destes que, no vazio, surgem como oportunidades de ‘não se têm nada a perder’, com ‘pequena’ excepção daquilo que todos os freelancers e ateliers vendem: o seu tempo. Ficando-se ainda com a ideia de que haverá algum reconhecimento quer pela selecção como por prémios ganhos. E o tão apetecido reconhecimento destes por parte de eventuais clientes.
De facto a remuneração de alguns bem como um reconhecimento publico por o ter ganho, e o ‘passaporte’ que isso traz como ilusão para um futuro mais risonho, são os únicos motivos que ainda, talvez, me consigam iludir na participação de um.

Trabalhar para aquecer ainda consegue ser menos precário do que um concurso, mas sempre que penso nestes, acabo por refinar mais essa noção. Trabalhar para aquecer, passa a servir também de albergue a um tipo de trabalho que nem para ‘pagar as contas’ dá. O único objectivo é entreter o sr. designer, que em vez de fazer palavras cruzadas, faz um logótipo por exemplo.

Os concursos são, de facto, com já alguém disse, uma melhor ou talvez única forma, de arranjar trabalho para fazer. Embora quem tenha dito isso, provavelmente não conheça a expressão ‘trabalhar para aquecer’. Pelo que no fundo, mantenho a minha profunda discórdia pelos mesmos. Já que só consigo olhar para eles como um acto de submissão, onde os participantes parecem declarar que o design de comunicação é, na verdade, uma ‘coisa’ que não têm valor nenhum.

One Comment

    • HugoMOP.dSGNz
    • Posted Dezembro 10, 2008 at 2:56 am
    • Permalink

    eu ainda conheço uma expressão melhor.
    ou melhor, uma versão mais completa dessa expressão.
    ficando assim a versão mais completa:
    “trabalhar para aquecer, mais vale morrer de frio.”
    então arranjo um cobertor ou um qualquer aquecedor e ja fico mais quente. de referir é o caso de ter de trabalhar para os pagar e sem o qual (trabalho) nem sequer me conseguiria alimentar.
    os teóricos que acreditam nos concursos, ja me fazem lembrar os professores do politecnico. “va la meninos, concorram para este e aquele concurso, lancem-se!” mal eles sabem que estudo, trabalho para um gabinete, tenho clientes meus e so vou ao gabinete buscar facturas e nao paro nunca.. mas concursos? naaaaaaaaaa! logo vou ao continente ou worten e compro um aquecedor.. trabalhei para ele mas nao trabalho para aquecer!


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