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Nestes três últimos anos, tenho assistido a uma mudança de posicionamento das livrarias, a qual acho, por um lado curiosa e por outro, muito má.

Primeiro, por posicionamento, refiro-me à forma que as livrarias arranjaram para vender livros, isto é, aos livros que vendem, ao modo como os vendem e à forma como os categorizam. Com isto, posicionam-se face ao público que procuram. E não falo só das livrarias físicas, falo também das online, ou melhor, exclusivamente online como a Wook ou a Amazon.

Como se já não bastasse o tipo de livros que escolhem para vender, que são só relatos de desgraças e de sucessos, livros de ‘ajudem-me, por favor! que não sei como falar com o meu filho’, livros de figuras públicas, livros de concelhos práticos e ‘bricabraques’, álbuns de fotos que se arranjam em qualquer lado e mais uns tantos que considero livros da treta. E acho isso, porque não vejo a oferta de conhecimento que oferecem e a nível de entretenimento têm nas televisões e Internet uma melhor meio para expor o seu conteúdo.

Mas as livrarias, têm também demonstrado a sua adaptação à nova clientela, ao catalogar os livros. Um exemplo:
Quando vou à secção de Psicologia o que lá não falta são livros lúdicos que abordam, também de forma lúdica e leviana, alguns aspectos de natureza psicológica do quotidiano. Mas são pequenos textos, pequenos manuais práticos do mesmo género dos livros que nos ensinam a criar o nosso Bonsai. Agora, esses livros do Bonsai não estão (nunca os vi, pelo menos) na parte da Ciência/Biologia, da mesma forma que a história da Carochinha, que foca alguns aspectos antropológicos muito interessantes, não se encontra na parte de Antropologia porque, a história da Carochinha é um conto popular e que como tal, é natural que como história que é, contenha uma dimensão antropológica relevante, mas não deixa por isso de ser, essencialmente, uma história.

Contudo, a história da carochinha ou qualquer colecção de contos populares, não ocupa nenhum lugar na prateleira da Antropologia, pela simples razão de que não é um estudo ou ensaio cientifico/académico, porventura apoiado noutros estudos, textos e práticas relevantes, de natureza cientifica que dão forma à Antropologia e que são úteis para quem quer informação nesta área, apoiada nessa substância, rigor e profundidade.

O mesmo se passa noutras áreas, como a psicologia, sociologia, economia, gestão, marketing, medicina, filosofia (que pelo desinteresse que lhe é merecido pelo público contemporâneo de uma livraria, nem sequer é alvo dessas confusões), biologia, física, química, geografia e por ai fora.

E como se já não fosse suficiente a escolha de livros que compram e pretendem vender, a disposição física que usam para os divulgar (ver post das Livrarias), as livrarias usam ainda este método de catalogação para ficarem lado-a-lado com o seu novo cliente.
A única justificação que encontro, para este último aspecto, é a de que querem que este novo perfil de leitor se sinta bem consigo, se sinta inteligente e com elevada auto-estima, já que afinal de contas o podem encontrar na secção de Antropologia a comprar a colecção de contos populares, na secção de Psicologia a comprar um livro que o ensine a falar com os amigos e na de Biologia a comprar outro que o ensine a cuidar bem do seu Bonsai.

Nas livrarias que vendem online, estes mesmo livros ocupam as listas pelas mesmas categorias das lojas físicas e são uma imensa perda de tempo e paciência.

Para os senhores da Bertrand, Almedina, Fnac, Wook e Amazon, e outra livraria qualquer que pretenda ter uma presença online ou dignificar a física, propunha o seguinte:
– Usem as seguintes grandes categorias de livros: Científicos / Académicos, Literatura, Lúdicos / Lazer, B.D, Arte, ou outras grandes categorias, já que não me lembro de todas.
– Em cada uma, subdividam pelas respectivas áreas de conhecimento.

Assim não enganavam ninguém, não faziam perder tempo a ninguém e também não afastavam ninguém.
Ia diminuir o ego de quem actualmente compra histórias da carochinha na secção de Antropologia (uma caricatura, bem sei), já que iria passar a comprar em Lúdicos/Lazer>Antropologia, mas prontos.. está lá o nome de Antropologia à mesma.

E não tenho nada contra os manuais disto e daquilo, nem contra os contos populares (muito pelo contrário). Só não gosto é de ir à procura de um livro, que seja de facto, sobre antropologia e em primeiro lugar, não ver lá nada de substancial e, em segundo lugar, ver lá uma série de livros que nada têm a ver e só me fazem perder tempo. Da mesma forma que quando vou à procura de contos populares, não gosto de não saber onde é que estão ou ter de os procurar em sítios errados.

2 Comments

  1. Concordo inteiramente!
    Sempre achei “piada” (sem ter piada nenhuma), à organização de livros nos centros comerciais. Aí, até pode haver desculpa, porque duvido que os funcionários tenham formação na área…
    Então, é ver astronomia e astrologia lado a lado, como se fossem a mesma temática, ou assuntos que eventualmente se complementassem! Também aprecio, e esta é a cereja no topo do bolo, a forma como arrumam a banda desenhada para adultos junto da infantil! (São bonecos, são bonecos!) :D

    • drkosmos
    • Posted Março 11, 2009 at 11:26 pm
    • Permalink

    haha! isso é verdade, nem me ocorreu :)


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